quarta-feira, 23 de maio de 2012

Escrever


A arte de escrever bem é inata.
Habilidade que se faz presente em quase todas as atividades, o texto é valorizado.
Quem escreve bem flui naturalmente e, lá pelas tantas, dribla o contexto sem perder o norte da sua fala. Ao contrário, enriquece e valoriza o assunto.

Redatores publicitários, por exemplo, são especialistas em dribles curtos, passes precisos e poucos chutes, de preferência certeiros. Os jornalistas também.
Sempre gostei de escrever, descrever, contar uma história, provocar conversa e driblar a atenção dos meus interlocutores. É divertido.
Mas a categoria de escritores que pretendo referir é outra. Os mestres.

Um escritor de raiz é um prestidigitador da palavra, capaz de transformar bula de remédio em literatura russa.
Não existe o maior dos escritores, os mestres são incomparáveis.

Mas existem as preferências, e eu coloco Shakespeare entre os dez mais.
Expressou com energia e sarcasmo a essência social da raça humana de uma forma quase contemporânea, mergulhou em abismos do desespero existencial e emergiu em belos campos medievais, onde as donzelas eram recatadas safadinhas e os solteiros pegavam as cortesãs, enquanto os apaixonados se maneavam em tragédias pessoais.

Saindo da Inglaterra medieval para o Alegrete da primeira metade do século vinte, existiu um poeta excepcional chamado João da Cunha Vargas que criava seus poemas e os memorizava sem escrever, artifício que ele não dominava.
Recitando-os ao longo da vida manteve sua obra preservada. Ditou seus poemas para gravá-los no livro Deixando o Pago, um dos seus mais belos textos.
Tornou-se um nome conhecido através do trabalho do músico Vitor Ramil, que transformou seus poemas em canções de um lirismo cativante.

João da Cunha Vargas é o equivalente gaúcho à Patativa do Assaré, cordelista genial que nasceu e viveu como um humilde sertanejo cearense de poucas letras.
O compositor e cantor Fagner trouxe o verso de Patativa para a canção popular e fez parceria com o grande compositor, ainda vivo naquela época.

Muitos são os mestres, produzem obras maravilhosas com o dom mágico da palavra.
Em todos eles é nítido que o tom pessoal genuíno é o segredo da alquimia.

quarta-feira, 16 de maio de 2012

Neve


Posso apostar que meu tio Ari, irmão do meu pai, morreu entre 19 e 20 de agosto de 1965.

Isto porque tio Ari achou de morrer durante a pior nevasca que o sul do Brasil registrou em cem anos, desde as lendárias neves de semanas inteiras, contadas pelos muito antigos.
Que neve a de 1965! De sumir com a paisagem e durar dois dias inteiros.

Eu tinha oito anos e brincava de submarino na salinha da minha casa.
Fogão a lenha com a chapa vermelha de tão quente e panos forrando as frestas do chalé.

Brincava de submarino me alojando sob uma instalação de cadeiras que eu mesmo fazia para o desespero da minha mãe, imitando com o canto da boca o efeito sonoro da série de televisão Viagem ao Fundo do Mar, que eu descobrira vendo tevê na casa da tia Noêmia.
Até porque, naquela época, a luta para garantir três refeições diárias para a família, era tudo.

Voltando ao fundo do mar, lá estava eu falando como se fosse o Almirante Nelson e o Capitão Lee, trocando informações. Como toda criança improvisava tudo, roteiro, diálogos e todos os efeitos sonoros conhecidos em 1965.

De repente alguém bate com desespero em nossa porta.
A Mara, minha prima, entra esbaforida e aos prantos, tão entrouxada que mal se vê seus olhinhos inchados de chorar, a boca vermelha e assada do frio.

- Ju, meu pai morreu! Agora a pouco, no hospital.

Fiquei estarrecido. Tio Ari saiu de casa para fazer uns exames, ainda semana passada estava consertando nossas bicicletas e contando piadas.
Mais tarde fiquei sabendo que ele tinha apenas 49 anos.
Fiquei com tanta pena da Mara que a convidei para entrar no meu submarino, mas tinha que parar de chorar. Não sei como, ela simplesmente fungou parou de chorar e entrou já querendo escolher a nova história pra brincar.
Deixei a doida a vontade pois fiquei com peninha dela... eu sabia o que era perder um pai.

As longas 24 horas de velório do tio Ari dariam um bom roteiro cinematográfico.
A parentada veio e se instalou na minha casa e na casa da Mara, café preto e carreteiro, jogo de cartas e vai conversa, recordações, piadas, choros, abraços e rezas.
Mas essa é uma outra história que, hora destas, vou tentar reconstituir na memória.

Finalmente enterramos o tio Ari, a neve cedeu, a cidade ficou enlameada e seguiu gelada.

sexta-feira, 11 de maio de 2012

Legal


E lá estava eu, trepado no pé-de-pera.
No esplendor irresponsável dos meus doze anos, depois de correr atrás de bola a tarde inteira no campinho de serragem, resolvi pular o muro do casario dos Selbach e roubar umas perinhas-manteiga, amarelinhas e no ponto.

Sob a proteção divina do lusco fusco da noitinha fui até quase o topo, apreciei a vista da minha rua. Era bonita. Poucas casas, quase todas de madeira na velha rua de pedregulho e as dezenas de chaminés soltando aquela fumaça que avisava da janta, dali a quase uma hora.
Mundo maravilhoso, jogo de bola, casa quentinha, comida no fogão e as peras grátis do Seu Selbach para garantir minha sobremesa.

Escolhi os galhos onde vi as mais maduras, sacudi um, depois o outro e, epa!
Seu Selbach ali, bem debaixo de onde eu estava, me olhando com uma careta meio estranha. Ai, ai, estou frito, pensei. Pior, minha mãe vai me matar.
- Tu não é o Juarez, filho da Dona Lorita?
- Oi Seu Selbach, boa noite. Nossa como o senhor me reconheceu no escuro?
- Tem mais alguém que rouba minhas frutas além de ti?
- Bah Seu Selbach, o senhor me desculpa! Eu juro que não vou fazer mais isto.
- Conheço gente que faz promessa, mas não vi ninguém mais rápido que tu.
- Eu já tava indo embora... Por favor me desculpa.
- Desce daí com cuidado rapaz, não vai te machucar.

No chão, aliás com a cara no chão de tanta vergonha, tentei sair correndo e o velho senhor me segurou pelo braço.
- Não, não, não! Junta as peras que você derrubou e leva contigo, pega aquela sacola.
- Mas a sacola é do senhor?
- As peras também são, nem por isto tu te importou de pegar escondido.

Me escoltou até o portão da sua bela propriedade, no caminho desviou o assunto e passou a me falar de coisas boas que podiam ser preparadas com aquelas frutas.
Eu mudo.
Quando ultrapassei o gradil do portão meu coração relaxou e, tentando ser gentil com meu vizinho (afinal ele ainda poderia me entregar para Dona Lorita), falei...
- Desculpa mais uma vez Seu Selbach e muito obrigado pelas peras. O senhor é uma pessoa muito legal.

O rosto do velho senhor se iluminou em um sorriso franco.
- Juarez, legal pra mim é quem é legal comigo.

Nunca mais roubei as peras do Seu Selbach.
Era só voltar com a sacola e entrar pelo portão, perdeu a graça.

quinta-feira, 26 de abril de 2012

Sonhos


Sonhar é vivenciar uma realidade paralela, sobre a qual não detemos controle.

O sonho se impõe em nossa mente adormecida e nos arrasta por labirintos de absoluta sofisticação. Nele tudo é real, o cenário, a situação e os personagens.
Freud ensinava que os sonhos são veículos para expressão dos nossos desejos reprimidos, ou ocultos da nossa consciência.
Algumas vezes isto fica bem evidente, por mais inconfessáveis que o sejam.

Mas existem inúmeras modalidades de sonho, algumas de um surrealismo que deixariam até Salvador Dali parecendo um estagiário da imaginação.
Outros sonhos parecem continuar processando a nossa vigília, trazendo fatos e situações bem reais ao nosso cotidiano, nas quais muitas vezes encontramos o detalhe que faltava para compreender um desafio ou de como agir diante dele.

Alguns são verdadeiras projeções existenciais, como visualizar o próprio corpo morto e estar presente no cerimonial de velório. Há sonhos bem dolorosos como a perda de  pessoas amadas, ou angustiantes situações de doença e perseguição.

Quem já não reencontrou pessoas falecidas em seus sonhos e muitas vezes com a consciência viva desta realidade em pleno desenrolar do sonho.
Sonhos repetidos com uma mesma cena, insólita e inexplicável.
Sonhar com queda livre e interminável, acordando no instante do quase impacto.
Estar em lugares que a gente nunca viu e, ainda assim, se sentir em casa.

Também é um mistério porque a gente lembra alguns sonhos e não de outros.
Às vezes, transcorrem longos períodos em que parecemos não sonhar e outros em que eles pululam, ao extremo de quase invadir a nossa mente já desperta.

A ciência tem muitas explicações para nossas experiências oníricas, que incluem os mais variados campos da medicina e em especial a psiquiatria, também a metafísica e as religiões possuem tratados de todo calibre sobre este tema.
De tudo que se sabe, aprecio sobremaneira aquilo que não se sabe ao certo.
Pois sonhar é, acima de tudo, uma conexão incerta.

terça-feira, 20 de março de 2012

Resiliente


Outro dia meu amigo Carlos me falou sobre a importância da resiliência, qualidade superior e muito procurada no perfil de aspirantes às lideranças organizacionais.
A palavra vem sendo empregada no sentido da capacidade em suportar pressões de toda ordem e transformá-las em combustível para evolução pessoal e profissional.
O caráter resiliente tem uma propriedade semelhante à vara do salto-com-vara, que verga sob a pressão que o atleta imprime com seu peso em velocidade e retorna impulsionando-o para o objetivo desejado, recuperando a seguir a sua forma original.

Pois bem, eu tenho praticado a resiliência como a arte da vida e sua sobrevivência.
Enquanto pratico esta forma de avanço persistente e paciência observadora, noto mais atentamente aquilo que se passa com os meus semelhantes, próximos ou não, por meio dos contatos diários, das leituras e do conjunto de outras mídias.

O exercício da resiliência, em cada ação cotidiana, me faz entender melhor e valorizar o meu papel individual nesta incerta e fascinante aventura que é viver.
Coadjuvante no sentido de deslocar a visão para o contexto maior dos processos e protagonista no esforço de construir um caminho de boas realizações e consolidar um legado que, por mais modesto, tenha algum valor em ser lembrado.

Até que ponto somos capazes de suportar cobranças, lidar com adversidades e outras realidades alienígenas ao nosso campo de força e entendimento, ainda manter o foco nos objetivos e energia necessária para agir de forma consciente e contínua.
A resposta é, cada um de nós determina o seu próprio limite.

O Stephen Hawking, físico e cosmólogo que virou celebridade, já produziu fantásticos conteúdos de ciência e de reflexões conceituais feitas com inquietante lucidez, mesmo aprisionado a um corpo quase inerte em conseqüência de uma esclerose irreversível.
Atualmente, na casa dos setenta anos, está impossibilitado de trabalhar, porém lúcido.
Como explicar tanta superação e prazer em explorar as possibilidades da vida?

Suspeito que a resposta está em Einstein: “a vida se passa entre as duas orelhas”.
Assim seguimos andando e bebendo na fonte da resiliência, sempre crescendo sob as pressões da jornada e fazendo um chazinho de erva-cidreira na entrada do inverno.
Avante!

quinta-feira, 1 de março de 2012

O deus da mudança

Há um forte movimento singrando sinuoso dentro da própria onda gigantesca que é o marketing, este 3.0 que abriu a segunda década do século vinte e um.
Trata-se do posicionamento da marca adequado à sua reputação.
Com as redes sociais fervilhando no éter da web, o bicho pegou de vez pra questão da imagem das marcas. Já é impossível forjar um escudo impermeável se feito somente de mídias clássicas, mesmo no caso dos mega investimentos.
É preciso estar em dia com a imagem, hora e minuto.


Finalmente nos transformamos na aldeia global hiper conectada, assim como predizia a ficção literária dos verdes anos da minha geração. Ou então como observaria o meu avô Alfredinho “até peido aparece nas fotos”.


Então meus irmãos, vamos praticar as promessas.


Vamos agir com coerência e transparência no trato com nossos amigos, parceiros, clientes e quem quer que componha a nossa rede de relacionamentos-alvo.
Chegou a hora da marca ser de verdade naquilo tudo que ela representa.
No meio de todo este cenário de incertezas: crise européia, crise americana, o apetite do dragão chinês, a copa do mundo e a olimpíada vindo para um Brasil de grandes números e desafios descomunais, especialmente de controle, eu vejo um horizonte aberto à colaboração criativa e efetiva da comunicação.
Para começo de conversa o ajuste no discurso institucional precisará ser exemplo de lucidez e apropriação das entrelinhas, as campanhas serão cada vez mais atentas ao pós-venda e suas suceptibilidades, e, nossos super executivos irão exercitar cada vez mais a simpatia e a humildade no trato com as críticas.


He, he, he... o pessoal do marketing vai ter que trabalhar ainda mais, porque as redes sociais exigirão cada vez mais respostas adequadas e verdadeiras.
Pelo menos não deverá faltar emprego.

quarta-feira, 8 de fevereiro de 2012

Inimigos na trincheira

O relacionamento entre irmãos de sangue é sabidamente marcado pelos mais variados sentimentos e manifestações do caráter humano.

Dadas às circunstâncias da vida, somente na fase adulta é que se revela o legítimo teor das ligações fraternas. Assim, irmãos que passaram a infância às turras podem vir a ser parceiros indefectíveis na maturidade e outros melosos companheiros dos velhos tempos podem se confrontar de forma irreversível no futuro.

O cronista Otto Lara Resende, segundo dizia seu amigo Nelson Rodrigues, forjou a máxima de que “o mineiro só é solidário no câncer”, um jeito mordaz de olhar sua própria origem cultural e a humanidade por extensão. Já vi coisa bem pior acontecer entre irmãs, além da negação de solidariedade uma infame reação de fugir às responsabilidades que poderiam advir de ter que partilhar os cuidados e o convívio com a mãe, frágil e velha.

Não é por acaso que a primeira história de relacionamento fraterno da Bíblia traz a tona um sujeito invejoso e frustrado que assassina o irmão abençoado.

Em um filme do Woody Allen dos Anos 1970, ele reencontra sua velha paixão em Nova Iorque e conversam animadamente em um café. De repente a mulher começa a perguntar pelo irmão dele, com quem ela tivera um affair, causando mau humor no personagem de Allen. Percebendo sua reação ela pergunta “você não gosta do seu irmão?” e ele dá uma resposta que merece figurar na galeria das melhores frases sobre as relações familiares: “gosto dele como um irmão, mas não meu”.

Neste infindável folhetim de morbidades existem personagens que carregam um grande manancial de responsabilidade sobre o roteiro original, os pais. Como todo mundo sabe, inclusive Confúcio e Freud, a coisa toda começa na criação e nas personalidades das matrizes. A infelicidade das relações conjugais se mascara em inumeráveis distorções no trato com os filhos e, muitas vezes, o chamado amor familiar esconde uma fábrica de monstruosidades.

Ainda bem que nem todas as famílias degeneram para a mesquinharia e o ódio, mas é significativa a proporção daquelas que descambam para o trato doentio na evolução de suas conexões. Portanto nem é por falta de possuir irmãos que o filho único é causa de apreensões, na verdade isto pode até ser uma grande vantagem. O que realmente angustia (os pais) é a falta de uma reserva e a projeção de tudo sobre uma só pessoa. Então faz diferença a qualidade do projeto e seus autores.
Na China se diz, há milhares de anos, que de pano ruim não se faz um bom saco.