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Tribos

Apesar das dissonâncias da vida e da inevitável necessidade de cuidar da sobrevivência, própria e do clã que escolhemos para integrar, eu não gosto de me queixar da sorte. Ao contrário, agradeço à Divina Providência por estar na companhia de quem elegi e pelos repetidos sinais de que estas escolhas, muito mais do que os fatos em si, sempre foram o traço mais assertivo da minha intuição sobre as pessoas em geral. Assim aprendi a valorizar a intuição como a forma mais sutil da inteligência. De resto é ralação e aquela parte que eu imagino ser o retorno metafísico. Pois bem, esta reflexão toda é para dizer que chegaram com 2014 alguns novos vizinhos no condomínio onde eu moro, coincidentemente bem próximos da minha casa. A Monique, o Gustavo e a Carol, na casa ao lado e, quase em frente, a Sol e a Jadhe. Espontaneamente nos tornamos amigos. Sim, tudo muito rápido e natural. Fazer amigos nunca foi uma dificuldade especial para Neca e eu, mas com o tempo a gente vai ficando mais se...

Pra não dizer que não falei de flores.

A vida anda tão difícil, é tanta violência e superficialidade que a gente quase esquece de que ainda existe o espírito de solidariedade entre boa parte das pessoas. Na noite da última quarta-feira, cerca de 23 horas, eu e minha mulher vínhamos trafegando na Avenida Beira-Rio, já próximo ao novo estádio do internacional, quando dois rapazes de moto nos alcançaram e buzinaram para me chamar a atenção. O carona apontou para o chão, abaixo do meu carro e o piloto gritou "está saindo faísca debaixo do teu carro!". A Neca me pediu que estacionasse mas falei pra ela que poderia ser um assalto e segui apesar dos avisos. Em seguida um automóvel me alcançou, baixou o vidro e o motorista gritou me alertando de fogo e fumaça.  Aí não tive dúvida, liguei o sinal de alerta e busquei a lateral da pista. Tão logo desliguei meu automóvel e um carro encostou atrás com as luzes piscantes também ligadas, reparei que se tratava de um casal. Saí do carro e fui abrir a frente para conferir o...

Geração Y

Eles são contratados como estagiários mas vão te impressionar de imediato com o uso pessoal que fazem das novas tecnologias de comunicação, aliás todos possuem o último modelo de iPhone. Quando o assunto de uma reunião for sobre as redes sociais você verá que todos utilizam uma nova rede ainda não popularizada, mas ainda assim utilizam o Twitter e o Facebook, sendo natural que possam estruturar e administrar fanpages de qualquer tipo de operação de negócios ou entidades, afinal eles encaram o uso das tecnologias com naturalidade e te fazem acreditar que já nasceram conhecendo tudo que precisa saber sobre marca. Você ficará estupefacto com tamanha desenvoltura e perceberá que pode dispensar todos os seus assessores analógicos, caros e ultrapassados, afinal a garotada o convenceu que você está fazendo tudo errado e que sua companhia está condenada ao extermínio. Então você toma a sua grande decisão depois do churrasco de domingo. Na segunda-feira pela manhã avisa a secretária para ...

Ser pobre é cool

Época estranha, para dizer o mínimo, esta em que estamos vivendo. A busca pelo condomínio residencial mais bacana, pelo carro dos sonhos, pela carreira bem paga e respeitada, pelo cônjuge de catálogo, pelos filhos perfeitos, pela silhueta da hora, pelas roupas de grife e pelas viagens mais desejadas – um estilo classe média com aspiração de rico que está ficando cada vez mais difícil de bancar e pouco divertido de usar, até para quem pode, pelo preço que se paga. O jeito então é andar na contramão como quem foge de feriados longos e das praias apinhadas de gente. Ser simples e low profile é a grande sacada. Não é preciso morar na favela nem virar contraventor, mas se aproximar do povo simples e fazer parte dele para ganhar autenticidade. Ter uma casinha confortável com um jardim e uma horta cuidados com carinho, comprar o pão naquele armazém da rua e conversar com os vizinhos, passear com o cachorro e fazer amizades com as pessoas nas ruas e praças, trocar receitas com os...

O fator Benicio

Sem nenhum preâmbulo, tia Zaíra me diz em meio à muvuca que tomara conta do galpão crioulo no Rancho da Condessa, “a minha família é mesmo incomum”. Falou tudo e falou bem. Os Benicios são descendentes de um tronco comum que mantém o hábito de se visitar e de se curtir como família há quatro gerações, no mínimo. E não é pouca gente. Na conjunção Benicio da Fonseca entram famílias de vários estados brasileiros, principalmente na conexão Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro e São Paulo. Todos se acompanharam crescer, casar, ter filhos, separar, casar de novo, agregar novos filhos, e depois os netos chegando, crescendo e a tribo aumentando e se espraiando. E o fenômeno é autêntico, todos os primos veneram seus tios e tias que, por sua vez adoram receber e retribuir este carinho, assim vai se transmitindo o costume aos quem vêm depois. Neca e eu nos tornamos agregados desta família, um privilégio que muito apreciamos. A convivência está fechando vinte anos e se torna ca...

Ao patrocinador

A quem se interessar em ser o mecenas da minha felicidade. Sou uma pessoa de bem com a vida, mantenho pequenos vícios sem culpa e gosto muito daquelas pessoas que considero essenciais no roteiro da minha existência, sendo capaz de quaisquer sacrifícios para ter a satisfação de vê-las bem e felizes. Considero meus amigos um patrimônio intangível de primeira grandeza e, embora tenha um visceral estilo low profile, gosto da minha profissão. Dito isto, devo dizer que não tenho aquele tipo de sonho "coisas para fazer ou lugares para visitar antes de morrer". Se der eu faço, se puder eu vou, mas se não for possível eu me garanto feliz com o que está ao meu alcance, indo até onde meu carro me levar e aonde minha intuição apontar. Não sou conformado, apenas não gosto de ser programado. Então, após um cálculo bastante heterodoxo, estabeleci que o valor do meu patrocínio para seguir despreocupado, além de feliz que já sou, é de 1 milhão e 400 mil reais, que aceito receber em m...

A última jornada

A morte levou meu pai no auge da sua juventude, tinha 33 anos quando foi vitimado por uma leucemia severa, impedindo que acompanhasse o crescimento dos filhos, eu com dois anos e meio e meu irmão com pouco mais de um ano. Para compensar, a vida me deu duas mães. Lorita, minha mãe biológica, lutadora incansável que sempre superou suas limitações financeiras para dar uma vida decente e um futuro melhor para seus filhos e netos. E Zenóbia, minha sogra, que por quase três décadas morou comigo e minha esposa, uma convivência rica e tumultuada, provando que algumas pessoas têm uma forma rara de afinidade natural, capaz de transformar rusgas em cumplicidade. Em 2013, as matriarcas da minha vida entraram em colapso, sendo internadas em residenciais para idosos quase ao mesmo tempo. Lorita em Gramado e Zenóbia em Porto Alegre. Minha mãe, embora mais jovem, 77 anos, atingiu um estágio avançado e terminal do Mal de Parkinson, aprisionada em uma cadeira de rodas, necessita de cu...