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Geração violada


O ano era 1977.
Envergando o uniforme de passeio de praças da Aeronáutica, no esplendor dos meus vinte anos eu curtia exibir minha primeira divisa recém conquistada, afinal eu podia me apresentar como um soldado de primeira classe da Força Aérea Brasileira.
Havia embarcado no ônibus em Canela e seguia para o quartel após um fim de semana sem escala de serviço. Aquela manhã de segunda estava gelada e coberta por densa neblina, nas poucas poltronas ocupadas as pessoas já dormiam antes mesmo da primeira parada prevista em nossa breve viagem.
Quando a porta se abriu para receber os passageiros que embarcavam em Gramado, eis que emergiu a figura de uma mulher madura, bonita e vestida com uma casualidade altiva.
Mirou seu olhar em meus olhos e me pediu licença para ocupar a poltrona vaga com um sutil acento germânico sem prejuízo do seu português correto.

Após me analisar com alguma discrição a coroa puxou assunto.
Devia ter uns cinquenta anos pensei, era bonita, mas muito velha para o meu gosto.
Resolvi exercer toda boa educação que Dona Lorita, minha mãe, tanto insistiu para me dar, às vezes até recorrendo aos expedientes medievais. Era obrigado a comer pimenta do reino pura para expiar meus palavrões, frequentes e quase incontroláveis.
Ao invés de me traumatizar, adicionou um tempero à minha vida. Adoro pimenta do reino.

Pois a bela senhora se apresentou e elogiou meu uniforme, segundo ela bem-cuidado.
Questionou minhas ideias sobre a vida militar e quis saber se eu fora convocado por força da lei ou me alistara voluntariamente.
Ficou surpresa quando eu disse que era voluntário mas que não pretendia seguir a carreira.
Conversamos o restante do trajeto e ela me contou que fora bailarina clássica, que nascera e vivera na Alemanha até se casar com um austríaco que era empresário hoteleiro em Atibaia, no estado de São Paulo.
Passou sua infância e adolescência em Frankfurt e tinha quinze anos quando os americanos tomaram a cidade, em 1945.
De uma família da alta classe média, dançava na principal companhia de baile da cidade e nos dias que antecederam a rendição alemã já ouvira algumas mulheres comentarem sobre os russos e violências sexuais cometidas contra jovens alemãs em Berlim.
Na verdade sua família rezou para os americanos chegarem antes do exército vermelho, nem tanto porque os yankees fossem anjos, mas o ímpeto russo era alimentado pela revanche de quem sofrera muitas perdas com a invasão alemã na Operação Barbarossa.
Contou que sua mãe a vestia com roupas maiores do que o seu tamanho para ela parecer muito mais magra do que efetivamente era. Escapou, mas viu amigas serem abusadas em público.

Passados trinta anos desse fortuito encontro, estou lendo o livro Uma Mulher em Berlim, com o relato anônimo de uma jovem mulher, hoje se sabe que ela era uma jornalista, sobre a tensão daqueles dias e do quanto esta experiência sulcou marcas definitivas nesta geração.
A partir da virada do século, que também é novo milênio, este tema começou a ser tratado na literatura, no cinema e na psique coletiva da Alemanha, antes o assunto era velado.
Cada pessoa reage a sua própria maneira aos processos traumáticos, mas é inegável que os estupros estão entre os mais cruéis exemplos da barbárie humana.
No caso da Alemanha de 1945, possuíam o macabro ingrediente da vingança.

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