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Avelina

Hoje o dia amanheceu cinzento, frio e dominado por uma persistente chuva fina.
Não é exagero dizer que a natureza estava expressando o sentimento das pessoas que privaram de alguma convivência com Avelina, que ontem partiu aos 59 anos ao fim de silenciosa guerra privada contra uma enfermidade insidiosa e cruel.

Avelina era, sem dúvida, a anfitriã mais amada e gentil para os amigos da Catrefa, confraria sobre a qual costumo referir frequentemente neste blog.
Sua risada contagiante fazia abrir um sorriso imediato em todos que gravitavam a sua volta, um traço peculiar da energia acolhedora desta brasileira nascida em São Borja com ascendência gaúcha e correntina.

Na partida de Avelina estavam todos, familiares, parentes e amigos, consternados e atônitos com seu desaparecimento, mas os aplausos que irromperam no instante do seu sepultamento foram o tributo merecido ao brilho legítimo da sua corajosa e inspiradora maneira de viver.
Avelina deixa dois filhos adultos e uma netinha ainda bebê, mas de forma especial e tocante encerra uma rara relação de amor e casamento de quase quatro décadas, com seu inseparável e dedicado companheiro Sérgio.

À noite, ainda sob o efeito do turbilhão das emoções que o velório de uma pessoa tão próxima e querida produz sobre a mente, procurei alguma coisa arejada para ler até a chegada do sono e, eis que, dentro das páginas de um velho livro havia um marca-páginas contendo um texto da cultura hindu, sem identificação de autor.
Ali estava escrito:
“A vida humana é o templo em que nossas mais caras relações de amor iluminam nossas almas como aberturas que nos dão a contemplar e entender os significados da existência. E, a mesma morte que ceifa estes amores também cerra estas janelas, nos defrontando com a escuridão, na qual somente as memórias que com carinho preservamos, têm o poder de iluminar o restante de nossas vidas.”

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