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Revolutionary Road

Se você ainda não viu, veja o filme de Sam Mendes, Revolutionary Road, que chegou ao mercado brasileiro com o título de Foi Apenas Um Sonho.
O livro, que originou esta mais recente e magnífica obra do diretor de Beleza Americana, foi publicado em 1961 por um escritor chamado Richard Yates. Depois de assistir a película, o livro entrou pra minha lista de leituras obrigatórias em 2009.
Fiquei profundamente impressionado com a história do casal Wheeler, protagonizado pela dupla Kate Winslet e Leonardo Di Caprio, uma trajetória desnorteante sobre os descaminhos conjugais e que vai muito além do óbvio. A forma como o adultério surge no enredo desafia os limites dos nossos conceitos sobre a vida amorosa.
Sam Mendes adora fustigar a linha que separa nossos limites emocionais da nossa própria insanidade existencial. Significativamente ele coloca os filhos fora da questão. As crianças estão presentes, mas não há concessão ao vínculo com a prole para dar uma desculpa à perda de sintonia do casal.
Eu diria que é uma das visões mais sinistras do casamento mostradas em um filme.

Deixando a arte e adentrando na vida real dos casais que se amam e compartilham seus sonhos, principalmente naquela fase do investimento nas carreiras profissionais, sou levado a crer que é justamente neste período, onde a relação parece invulnerável, que o risco do afastamento assume sua máxima potência.
A rotina corrida, a compra do apartamento, a aquisição do novo carro e aquela viagem desejada há muito, tudo isto se desenvolve sob um forte clima de excitação e passa a exercer um poder determinante sobre o casal.
É um perigo. As pessoas precisam de uma certa tranquilidade emocional para cultivar o carinho e o afeto. O amor demanda tempo e atenção.
Às vezes, momentos indesejáveis, como a doença e as dificuldades financeiras, têm mais poder de aproximar o casal de seus valores essenciais e fortalecer a união, pois exigem mais companheirismo e tolerância no trato pessoal.
Este modelo de conquistar cada vez mais, enriquecer progressivamente e consumir o que o mundo oferece de melhor o tempo todo, está fadado ao colapso. As pessoas se unem por afinidades de performance, adquirem hábitos estereotipados e, de repente, quando algo dá errado, afundam aterrorizadas no seu vazio interior.
Onde foram parar os amigos antigos? Que fim levou o prazer prosaico de visitar os parentes distantes e de se divertir em domingueiras saudáveis em torno do fogão à lenha? De levar as crianças para um piquenique?

Acredito que cada um deve lutar por aquilo que deseja na vida, dedicar seu tempo e a sua persistência para atingir os objetivos aos quais se propôs. É isto que nos move.
Porém é preciso olhar muito bem para o conteúdo daquilo que tanto buscamos e para o preço que estamos dispostos a pagar por estas conquistas. De que adianta ganhar o mundo se perdermos o amor e o afeto das pessoas que nos são mais preciosas.
Quase sempre é possível recomeçar na vida. Outro dia me comovi com um agricultor do Vale do Itajaí, em Santa Catarina, que perguntado por um repórter de como estava sua situação após perder casa e terreno nas cheias do último verão, ele sorriu e falou que as coisas estavam se ajeitando, porque sua mulher e os dois filhos se salvaram e agora, ainda mais unidos, eles trabalham para comprar um terreno e erguer sua casa.
Ou seja, eles só precisam de uma nova casa porque o seu lar nunca deixou de existir.

Comentários

Gui Scheinpflug disse…
Outro texto fantástico, parabéns. tens o dom da palavra, meu amigo.

O filme, um dia vou ver, quando eu voltar para a civilização... Fiquei curiosa pra saber detalhes da história. O que tu falastes é verdade, a maioria dos casais coloca os filhos como dificuldade de união, e na realidade talvez sejam outros os motivos do desequilíbrio.

Comigo aconteceu algo que até então eu achava estranho, mas encaixa com o que você falou: eu deixei a minha ambição de lado e me tornei uma pessoa muito mais realizada.
beijos mil!

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