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Ficando velho

Estou ficando velho.
Não me refiro aos meus cinquenta e dois anos, mas eles ratificam esta percepção.
Voltei a me exercitar regularmente, pois além da sobrevivência também preciso reduzir o peso e tenho um joelho que avisa o fim próximo da minha pelada de futebol.
Ainda bem que nem tudo que é bom está tão ameaçado quanto o jogo de bola, mas já não posso simplesmente viver do meu velho e bom jeito desregrado de ser.
Tenho que considerar de forma séria e definitiva a ruptura com o tabagismo, após quase trinta anos fumando a saúde começa a apresentar a conta dos estragos. Não tem jeito, a gente envelhece por fora e por dentro. É difícil assimilar esta realidade.
Consultei um cardiologista para verificar minhas condições de retomar uma atividade de academia. O médico jovem e muito especializado, também pneumologista, analisou meu aspecto clínico como positivo e liberou a atividade física quase sem ressalvas.
Mas terei que fazer uma série de exames e isto sempre assusta um pouco. Enfim.

A cultura ocidental não nos prepara adequadamente para o envelhecimento, parece que ninguém mais quer ficar velho nos dias de hoje.
Conheço algumas pessoas se preservando para viver cem anos. Chatos, na maioria.
Acho a vida tão boa que, enquanto a mente estiver lúcida e as funcionalidades básicas estiverem sob controle, vale muito apreciar cada momento.
Além deste ponto me parece que a eutanásia seria a melhor perspectiva.
Tentarei me adaptar a minha real idade. Vou me tornar um velho sarado e comedor de alface em nome da preservação da minha qualidade de vida.
Sentirei saudades da minha juventude, dos meus dias vividos entre a virtude e o vício.

A gente descobre a própria idade pela distância de nossas memórias mais antigas.
Sou tão velho que lembro bem do dia em que assassinaram o Robert Kennedy, minha escola marista fez uma homenagem ao parlamentar americano e suspendeu as aulas. Também tenho nítidas na memória as imagens de Canela coberta de neve no inverno de 1965. Meu tio Ari, vizinho de frente na rua em que eu morava, faleceu naquele dia de nevasca impiedosa. Minha casa se encheu de parentes, servindo de apoio técnico ao velório que transcorreu na sala da frente da casa da viúva. Ainda revejo minha prima Mara aos prantos e os patos selvagens de louça pendurados na parede ao fundo do lugar onde colocaram o ataúde, no qual meu tio parecia um boneco de cera.
Lembro também do dia em que ouvi o Brizola discursando no rádio em defesa da Legalidade e a cara de apavorada da minha mãe, era o ano de 1961.
Quatro anos depois eu fazia o meu primeiro e único álbum de figurinhas, Bandeiras e Uniformes, que completei após gastar fortunas na livraria do Seu Jung. Ironicamente foi no lixo que achei a estampa que faltava, o Cadete de West Point.

Estou redescobrindo o bem estar físico produzido pela endorfina após uma sessão de suor e persistência. Ainda não alterei o meu cardápio serrano, ontem mesmo preparei um arroz de china pobre para saborear com minha sogra. Depois, em nome da minha nova responsabilidade com uma alimentação saudável, comi uma maçã. Eca!

Comentários

teste2 disse…
Rapaz, Sempre que posso leio seus textos, e esse em particular me lembrou muito de nossas conversas sobre viver na medida, ser moderado na hora de beber, fumar, comer, quando se fala de política, futebol ou religião. Enfim, a regra é a mesma, acho que só não se aplica quando o assunto é ser feliz.

Um grande abraço do amigo...

Tiago Fister.

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