Pular para o conteúdo principal

Neca e Eu

Meu casamento desafia a projeção de durabilidade dos matrimônios nacionais, dez anos e meio segundo estudo do IBGE, pois eu e a Neca estamos juntos há vinte e cinco anos.
Mais do que isto, a gente trabalha na mesma empresa há quinze, um relacionamento full time.
Quem nos conhece separadamente, sem saber que somos casados, dificilmente iria imaginar uma relação entre duas pessoas tão diversas. Quanto menos tão duradoura como a nossa. Entretanto, quem convive com o casal não chega a estranhar esta combinação que, este ano, conquista suas Bodas de Prata.

Pela primeira vez exercito e registro de forma mais pública uma reflexão sobre nossa aparente incompatibilidade de estilos e o porquê de tanta diferença sobreviver em harmonia.

A Neca é obstinadamente disciplinada na busca dos seus objetivos, intolerante com a perda de tempo na resoluções cotidianas, do conserto da torneira do banheiro até quaisquer demandas que envolvam nossa empresa ou a vida familiar.
Mas também é uma manteiga derretida no que refere a animais, crianças e pessoas idosas.
Apaixonada por cinema e música, especialmente rock, possui um raro senso seletivo sobre o que tem valor artístico em detrimento do que venha a ser lugar-comum.
Espírito vigilante contra as injustiças cotidianas é uma pessoa que não admite ser mal atendida em estabelecimentos comerciais ou públicos. Sabe exigir o que lhe é de direito com a sua boa educação e a firmeza de personalidade.
Afetiva, inquieta e sensível, porém uma verdadeira suçuarana naquelas fases mensais.

De minha parte, represento muito do que a personalidade da Neca abomina no ser masculino.
Admito uma preguiça natural que cultivo desde a infância (fato que já preocupava minha mãe) e costumo postergar pequenas providências até os limites máximos dos prazos.
Também famosa é minha impontualidade. Nunca perdi um cliente por isto, mas já estive perto.
Das artes, a literatura é meu ópio, porém tenho um bloqueio com música e ritmo, sendo motivo de chacotas a minha incapacidade de identificar o quê está tocando ou quem está cantando.
Aliás, a Neca adora me testar e se diverte com minha absoluta ausência de ouvido musical.
Sou afetivo e carinhoso com as pessoas mais próximas. Teimoso. Irreverente. Comilão.
Quando me tratam mal ou com indiferença, via de regra não reclamo, apenas desapareço.
Adoro meus cachorros. Gatos e crianças muito novas me parecem um tanto sem graça.
Sou pouco otimista com o futuro da humanidade e aprendi a não sofrer demais com isto, pois acredito nas transformações individuais e nos pequenos projetos de felicidade.

Esta é a parte mais evidente do que somos eu e a Neca.
O que está localizado mais ao fundo é o amor que nos mantém unidos, nascido de uma paixão imediata quando a gente se conheceu em uma festa de aniversário em pleno movimento pelas eleições diretas no Brasil, no já distante ano de 1984. Em dois meses estávamos morando sob o mesmo teto e a família inteira, pelos dois lados, apostou que era apenas um fogo de palha.
Não fazíamos planos apenas nos divertíamos e, quando vimos, o amor se instalara em nossas vidas. O que já vivemos juntos reúne todos os ingredientes clássicos do drama à comédia, mas de uma forma mágica sempre estamos sintonizados com o presente.

E como bem diz o verso da canção de Cazuza "o nosso amor a gente inventa pra se distrair".

Comentários

Neca disse…
Ai,ai...nem me fala!
Tiago disse…
Mestre!

Parabéns pela inspiração ao escrever esse texto. Espero que eu possa aplicar um pouco das experiências desses 25 anos no meu relacionamento.

PS: Estou articulando uma reunião, em breve entraremos em contato!

Flw!
Caro amigo, qualquer semelhança mera coincidência....acho que a tua crônica sugere uma fórmula de relacionamento. Ago que tenciona o compromisso da relação e suas formalizações do tipo casamento com a felicidade real em que a aliança é a vontade de estar junto. Talvez a hipótese do casamento tenha tamanha falência pela anulação do compromisso de manter uma relação de qualidade. A idéia do ter, de posse sobre o outro, da garantia, já pressupõe uma acomodação das partes envolvidas e a degeneração da relação inicia diante do altar.
Gostei do texto e me identifiquei muito com ele. Já foi publicado no Eco.

grande abraço,

Charles Scholl
Pablo disse…
"Neca e eu" renderia um belo livro, por ora, esta crônica tá especial de primeira!!!

Abraço.

Postagens mais visitadas deste blog

O Rei, o Mago, o Bardo e o Bobo.

Eles se encontraram por um breve tempo às bordas da floresta alta, nas franjas verdes do grande vale. O Rei, sempre magnânimo com todos que mostravam admiração e simpatia por suas ideias e preleções, contratou o Bobo para escrever suas memórias. O Mago que conhecia o Rei de muitas luas procurava descobrir as conexões emocionais com os novos amigos e celebrar as revelações deste encontro. O Bardo só queria levar suas canções e melodias ao coração de todos, especialmente ao do Rei, para o qual compôs uma bela ode. O Bobo amava os encontros e se divertia em pregar peças no Rei e propor charadas aos companheiros, mas também se emocionava e se encantava com os novos amigos e os seus talentos. Tudo andava de forma mágica e envolvente até o dia em que o Rei, olhou severo para o Bobo e sentenciou:  - Você distorce tudo o que eu digo, duvida de tudo que eu sigo e escreve somente a tua versão das coisas que eu lhe relato! Me sinto desrespeitado e quero que você saiba disso. A partir dali os ...

Um dia cinza

Estou na área central de Caxias do Sul.  Tomo um café na padaria da esquina e faço tempo enquanto minha mulher consulta o seu dentista.  Olhando pela janela vejo o movimento das pessoas encasacadas no dia cinza chumbo e tenho a impressão que estamos vivendo um dia gelado, perto dos 5 graus. Mas não é o que ocorre, no momento fazem amenos 15°. É interessante esta distopia entre essas  realidades, a aparente e a real. Uma metáfora diante de tantas conclusões erradas que são formuladas a partir de pontos de vista falhos. O jeito é observar melhor, não se apressar em fazer juízo de tudo. Olhar, apenas olhar, absorver a vida. E no meu caso, pedir outro café.☕

Noites de São João

Sempre gostei das festas juninas e por sorte minha esposa também. Assim, quase todos os anos, desde que casamos, participamos de uma ou mais festas juninas ano a ano, sempre às vésperas do inverno. Quando jovens elas ocorriam em locais fora da cidade, bairros distantes ou algum sítio ou chácara de alguém do círculo de amigos, a gente levava uma barraca e se instalava o melhor possível.  Foi uma época inesquecível. Juventude. Depois vieram as festas mais íntimas, amigos próximos que se reuniam em casa ou partiam juntos para festas maiores. Foi a era rock'n roll, muita bebida, cigarros e maconha. Bem antes eram as festas da infância, onde se pulava fogueira. No colégio marista eu era da equipe que buscava a lenha, outros tinham a missão de localizar e trazer o mastro central, alguns reuniam pneus velhos para colocar na base e, lá pelas 21 horas, a cidade inteira se reunia no pátio do colégio. Eram sorteadas várias rifas que os alunos vendiam, na área coberta a feira de quitutes já es...