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O ringue

Naqueles dias que fechavam a década de 1960 eu pouco sabia do que se passava nas grandes cidades. Ainda não havia tevê na minha casa e a cidade onde vivia era muito pouco conectada a Porto Alegre, exceto pelas viagens de ônibus que demoravam quase cinco horas para perfazer os cento e poucos quilômetros que separavam nosso cotidiano bucólico da agitação da capital. Haviam alguns poucos ricos que já tinham grandes propriedades de veraneio na serra e, nos breves contatos em que as crianças nativas podiam estabelecer com eles, nos falavam das belezas da metrópole e de suas viagens para terras estrangeiras em navios e aviões que cruzavam o oceano. Os dias eram longos e preenchidos com as aulas matinais, as tardes de trabalho na fábrica de camas para ajudar no orçamento doméstico, o futebol no campinho forrado de serragem de madeira e os passeios pelas matas próximas em busca de pinhão e à caça de passarinhos [naquela época os guris caçavam com suas fundas os pobres e desavisados sab...

Só falta você

Ê-ê-ê-ê, só falta você, capricha no samba pra gente vencer! Este era o refrão do samba enredo que o último bloco de carnaval do qual fiz parte, nos meus tempos de juventude e solteirice na cidade de Canela, levou para a competição de blocos do Clube Serrano. O tema escolhido foi Luzes da Ribalta, uma homenagem a Charles Chaplin, eu fui incumbido dos desenhos das alegorias e estandartes, além de atuar como Carlitos em uma cena especialmente feita para a apresentação no clube. Por algum motivo acho que exagerei na dramaticidade, era uma cena inspirada no filme O Garoto, interpretado pelo Paulo Rizzo, pois quando encerramos a performance (que incluía um violinista tocando Smile enquanto a bateria permanecia em silêncio), irromperam os aplausos mas as pessoas choravam copiosamente. Acho que ganhamos o prêmio de criatividade e inovação, mas foi o fim da minha vida de momo. Antes participei de um bloco chamado Inimigos do Ritmo, que assumidamente não era lá estas coisas com ritmo e mar...

A casca que nos protege

É provável que a história oficial da humanidade tenha entrado em uma nova era. O fim do período histórico anterior poderá ficar datado entre o surgimento da internet e o lançamento dos smartphones, a partir dos quais todas as barreiras da intercomunicação caíram definitivamente. Se isto de fato se comprovar, nossa geração está vivendo o início de um ciclo desconhecido, no qual tudo é possível, desde a confirmação das nossas melhores perspectivas [como viver mais de 100 anos em média] até o oposto radical [defrontarmos com um caos planetário em menos de um século]. Existem sinais claros que reforçam ambas possibilidades. Alea jacta est! Junto com este novo contexto, voltamos às lutas tribais nos países pobres, vivenciamos uma luta mortal entre o mundo civilizado e rico contra o mundo antigo, religioso e pobre. Aqui nos trópicos sul americanos a praga vem da falsidade perversa com que forjamos a nossas culturas nacionais, onde desejamos ser a Suécia mas praticamos uma polí...

Rue de Fleurus, 27.

Qual é a motivação principal para se fazer uma viagem? Durante a maior parte da minha vida eu tive a sensação de que não precisaria conhecer in loco nenhum lugar do mundo, porque minhas paisagens próprias e próximas me bastavam. O custo financeiro, os longos percursos, a mudança da alimentação e o afastamento da minha casa, dos meus bichos e das minhas rotinas, justificavam suficientemente o meu desinteresse em viajar. Além disto tudo, considerava que conhecer a história, a cultura e os costumes de cidades e nações, incluindo aí as minhas preferências, era uma viagem muito mais "real" ao ser realizada através da arte, especialmente da literatura e dos grandes escritores. Conjugando o texto vivo com obras audiovisuais, especialmente o cinema, e as boas reproduções gráficas das outras artes, bem catalogadas e legendadas, eu possuia o melhor conhecimento e a mais viva experiência sobre os aspectos mais relevantes de qualquer lugar, povo e suas idiossincrasias. Assim os p...

Aquela mulher

Para quem acha que Lady Di foi a personalidade mais incômoda na vida da corte inglesa, precisa conhecer a história de uma moça chamada Wallis Simpson. Ela já surgiu incendiando os tablóides ingleses quando apareceu namorando Edward VIII, sucessor do Rei George V, da Casa de Windsor, ou seja, da Família Real Inglesa. A má fama de Wallis provém da sua condição de mulher fatal, com relações políticas perigosas para sua época, a década de 1930 e o seu profuso contato com o undergroung londrino. Quando conheceu Edward, Wallis ainda era casada e carregava o sobrenome do maridão Ernest Simpson , na verdade ex, já privado daquele corpo esguio de longas pernas torneadas. Ela andava à solta pela noite da capital britânica, uma tribo de endinheirados devassos, nobres levados da breca, artistas, escritores e outros amantes do rendez-vouz sofisticado. O impacto da sua imagem ameaçadora sobre a classe alta inglesa, que amava o herdeiro do trono pela sua jovialidade, elegância e espor...

O clube do inferno.

O século XVIII, auge do iluminismo, foi também a era em que o cinismo intelectual das elites se alçou às formas organizadas de diversão amoral para seletos convivas. O estilo rococó dominava todas as artes, da arquitetura de Versalhes à pintura de Goya. Na França Fragonard, Boucher e Watteau, cada um a seu tempo, pintavam o hedonismo da corte e da nobreza em geral. Tempos de Casanova e Marquês de Sade. Tanta exuberância e vaidade foi se impregnando do escárnio às sacralidades, especialmente às de fundamentação católica romana e anglicana, da Grã-Bretanha, consequentemente desprezando seus dogmas. Entre as expressões mais desafiadoras aos poderes constituídos daquele século, surgiram na Inglaterra clubes formados por gente acima de qualquer suspeita - nobres hedonistas, ricos burgueses, artistas renomados e até mesmo clérigos poderosos - onde se praticavam orgias com prostitutas vestidas de freiras, todos se tratavam pelo rito de "irmão" e tinham como lema, em francês anti...

O nariz do outro

Dia destes fiz um tour cirúrgico em um hospital de Porto Alegre. Literalmente baixei para uma cirurgia ambulatorial e, no dia seguinte, recebi alta pesando um pouco menos por conta dos cálculos biliares que deixei lá, junto com minha vesícula. Mas não tenho muito o que falar da minha própria estada, exceto de que tudo andou bem e, depois de um retorno um tanto confuso desde a anestesia geral, foi um contar minuto a minuto até rever o médico no dia seguinte e ouvi-lo dizer que eu poderia ir para casa. Que alegria. O tema desta publicação me surgiu observando que, na sala de recuperação onde fiquei por longas horas, um expressivo número de pessoas, maioria muito jovens, cerca de dois terços de toda lotação da ala, haviam realizado cirurgia plástica no nariz. Nunca imaginei que tanta gente pudesse gostar tão pouco da sua aparência ao ponto de se submeter a uma anestesia geral e a uma cirurgia para redesenhar seu focinho. Eu nada tenho a ver com o nariz dos outros mas uma quantidad...